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Imagem de capa - Unitas Multiplex
LOGOTERAPIA E A PESSOA HUMANA

A pessoa humana é "Unitas Multiplex"

A antropologia de Viktor Frankl, desenvolvida a partir de sua experiência existencial e clínica, apresenta uma visão integral do ser humano. Longe de reduções biologicistas ou psicologistas, Frankl propõe uma série de dez teses que revelam a pessoa em sua profundidade.

Na Aula 010 da Logopráxis, foram estudadas a Tese 7 e a Tese 8, que nos lembram duas verdades fundamentais: o ser humano é unidade e totalidade (unitas multiplex) e é também um ser dinâmico.

Essas teses nos convidam a olhar para além das aparências. A pessoa não é soma de partes — corpo, psique e espírito não existem isoladamente. O núcleo espiritual integra todas as dimensões. Da mesma forma, a vida não é um estado de equilíbrio estático, mas movimento constante, marcado pela tensão entre quem somos e quem somos chamados a ser.
Harisson Santos | 09.set.2025 | Tempo de leitura: 15 minutos

A Pessoa é Unidade e Totalidade

A sétima tese afirma que a pessoa é unitas multiplex, uma expressão tomada por Frankl de Santo Tomás de Aquino. Isso significa que a pessoa é uma unidade na multiplicidade.

O ser humano não pode ser explicado apenas pelo corpo, nem apenas pela psique. Sua identidade está enraizada no núcleo espiritual. É o espírito que integra as dimensões inferiores e garante a dignidade da pessoa.

Na prática, percebemos essa verdade quando enfrentamos perdas. Uma pessoa que sofre amputações, que adoece ou que perde a memória, não deixa de ser pessoa. Sua dignidade não depende da integridade física ou psicológica, mas daquilo que permanece inquebrantável.

“Quebraram meu pescoço, mas não quebraram o meu ser.”

Essa frase resume a Tese 7: o núcleo da pessoa é inviolável. Nenhuma condição externa pode eliminar sua essência.

A tese também traz implicações éticas importantes. Quando discutimos o aborto, por exemplo, Frankl afirma que desde a concepção já há corpo, psique em formação e espírito. Não se trata de “vir a ser” uma pessoa, mas de ser alguém em desenvolvimento. Eliminar essa vida é eliminar uma pessoa inteira, não apenas um amontoado de células.

Assim, a unidade e totalidade nos lembram que a pessoa é inteira em todas as fases e situações. Mesmo em coma, mesmo em sofrimento, mesmo em decadência física, a essência humana permanece.


A Pessoa é Dinâmica

A oitava tese afirma que a pessoa é dinâmica. A vida não é estática, nem busca simplesmente o equilíbrio (homeostase). Ao contrário, a existência se realiza em movimento, em tensão, em desafios.

Frankl insiste que não devemos fugir das tensões, mas assumi-las como parte constitutiva da vida. Ele chama essa tensão de tensão noética ou tensão espiritual, vivida entre o ser e o dever ser.

A vida sempre nos chama a algo maior. Entre quem sou agora e quem devo ser há um espaço de crescimento, de desafio e de responsabilidade. É nesse espaço que surge o sentido.

O contrário disso é o vazio existencial: uma vida anestesiada, que busca apenas conforto, prazer ou fuga da dor. Harisson cita como exemplo a cultura atual, marcada pelo excesso de analgésicos e pela tentativa de suprimir sofrimentos inevitáveis, como o luto. A sociedade que tenta eliminar a dor acaba por gerar novas formas de adoecimento.

  • Quem busca diretamente a felicidade se frustra.
  • A felicidade não pode ser objetivo, mas consequência.

Se coloco como meta “ser feliz”, o vazio será inevitável. Mas se busco uma causa, uma missão, um porquê — então a felicidade aparece como efeito colateral.

Exemplo: uma pessoa pode buscar riqueza por pura vaidade e se frustrar. Mas se sua riqueza for um meio para cuidar da família, servir a outros, realizar um projeto de amor, ela encontrará sentido — e a felicidade virá por acréscimo.

Esse dinamismo pode ser ilustrado pela imagem do eletrocardiograma. A vida pulsa em altos e baixos, em movimentos ascendentes e descendentes. Uma linha reta no monitor não é sinal de equilíbrio, mas de morte.


Implicações Clínicas

As teses 7 e 8 têm impacto direto na prática clínica.

Se a pessoa é totalidade, o terapeuta não pode reduzi-la a sintomas ou diagnósticos. O paciente não é um “CID” ou um transtorno. Ele é alguém. Sua presença inclui corpo, psique e espírito. A escuta precisa ser integral: observar postura, respiração, silêncios, expressões.

Se a pessoa é dinâmica, a clínica não deve buscar apenas “aliviar tensões”. Ao contrário, deve ajudar o paciente a encontrar sentido nelas. O sofrimento inevitável pode ser carregado com dignidade quando se descobre um porquê.

O papel do terapeuta não é eliminar todas as dores, mas acompanhar o paciente a atravessá-las com sentido.


Conclusão

A Tese 7 e a Tese 8 revelam que o ser humano é, ao mesmo tempo, inteiro e em movimento. Sua dignidade está no espírito que integra corpo e psique; sua vocação está no dinamismo que o projeta para o futuro.

“Quebraram meu pescoço, mas não quebraram o meu ser.”

Essa frase é ícone da Tese 7: a pessoa é inquebrantável em sua essência.

“A busca direta pela felicidade é a própria infelicidade.”

Essa é a Tese 8: o dinamismo do sentido gera a verdadeira realização.

A Logoterapia, assim, se apresenta como uma psicologia da dignidade. Uma psicologia que respeita a totalidade da pessoa e a acompanha no movimento da vida.

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Referências Bibliográficas:

  • Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido.
  • Frankl, Viktor E. Psicoterapia e Sentido da Vida.
  • Aula 010 – Logopráxis | Prof. Harisson Santos.

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